CRONICAS DE TETE 6
- canhandula
- Aug 31, 2025
- 7 min read
Evento literário raro
I. INTRODUCAO
Um evento raríssimo teve lugar em Tete no dia 28 de Agosto de 2025, na presença do Reverendíssimo Senhor Bispo da Diocese de Tete, de Mestres Professores da Universidade Católica, Reverendos padres, dos estudantes da mesma Universidade e de alguns amigos e convidados: O lançamento do livro o Seminário católico de Zóbwè - entre a Cruz e o fuzil. Foi um momento primeiramente intelectual, mas também tem outros aspectos importantes tais como a reposição de certas verdades históricas cuja importância curativa não devemos menosprezar.
Digo momento raríssimo, mas posso estar equivocado, uma vez que só estou em Tete desde Dezembro de 2021.
O livro, da autoria de João Truzão, traça a história do Seminário do Zóbwè e a intercessão da sua história com a história da libertação do nosso país.
O momento foi caracterizado pela apresentação pública do livro pelo Bispo, uma resenha histórica pelo autor, e por uma sessão de perguntas e respostas, terminando com uma venda dedicatória de alguns exemplares.
O evento inseriu-se na celebração dos 30 anos da Universidade Católica de Moçambique, do seu Padroeiro, Santo Agostinho, o Africano[1]; e incidentalmente,
Dos 75 Anos da fundação do Seminário do Zóbwè
Dos 50 anos da independência de Moçambique
E muito por acaso, da semana do Catequista na Diocese de Tete, dos quais eu sou um.
O lançamento foi presidido pelo Reverendíssimo Bispo de Tete, Dom Diamantino Antunes, que ao mencionar a figura de Santo Agostinho, nos lembrou que a razão e a fé são as duas asas existenciais do homem, uma valendo-se da outra para a realização integral da pessoa humana.
Concluo do discurso do Bispo portanto que a razão e a fé são o substrato e a fundação da Universidade Católica em Moçambique.
Estando este lançamento inserido no contexto do aniversário da Universidade, para além do lançamento e de forma mais central, participamos numa missa memorial, assistimos a uma encenação alegórica da vida de Santo Agostinho, uma palestra que infelizmente não teve tempo para perguntas e respostas; houve também a bênção das instalações universitárias pelo Bispo.
II. CONTEXTO
Tendo eu mesmo sido seminarista no Seminário menor do Zóbwè, o meu testemunho, centra-se no facto de que o seminário permitiu a pessoas de origem humilde como eu, de singrar na vida. Sou de origem rural, de uma família lá na aldeia obscura da Angónia chamada Nsekere, onde até hoje não chegou a electricidade. Para receber a rede, é preciso viajar para uma aldeia mais ao alto chamada Banga, e aí subir a uma arvore para falar. A água que usamos para lavar a roupa, limpeza e cozinha busca-se de um poço cavado por uma ONG chamada Federação Luterana Mundial há trinta e cinco anos.
E daí cheguei a ser representante do Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados em cinco países. Um posto diplomático altíssimo que nunca teria atingido se não tivesse passado pelo Seminário do Zóbwè, pela educação católica rigorosa.
Para compreender quão humilde são as origens das pessoas que passaram pelo seminário e que o Zóbwè lançou muito alto na vida, vou pintar um pouco mais as características da minha aldeia.
A minha aldeia, como todas na zona, tem umas raras casas de alvenaria e de tecto de zinco[2]. A regra são casas de argila reforçada de estacas, redondas e com tecto de palha recolhida em tempo seco. Dentro de uma casa existe um canto para as panelas e as reservas de água (mbia), um canto para as galinhas ao anoitecer, um canto para a família ou as crianças dormirem, e no centro, uma cova redonda e não profunda que faz ofício de cozinha.
Se não tiver um gato, a noite é pontuada por correria de ratos e ratazanas entre as mantas e as panelas. É desse ambiente que eu originei. Não sou filho de nenhum funcionário evoluído. E como eu, a maioria esmagadora dos mais de 900 seminaristas que por Zóbwè passaram. Das casas de caniço, por assim dizer, passei a gozar de títulos muito prestigiosos na vida, antes da reforma.
Tendo compreendido o valor da qualidade de educação nos seminários, compreendi também que o resto do sucesso era apenas da minha responsabilidade e assim agi: estudar, aprender e ler até morrer.
Com efeito, saí do seminário menor do Zóbwè para o seminário médio de Chimoio, onde o Reitor era o falecido padre Alexandre José Maria, que passou a Arcebispo de Maputo.
Deixei o Seminário e fiquei pelo Chimoio como Professor. Passados sete anos, um governador que se chamava Manuel António convocou-me ao seu escritório para me dizer que eu ia a Maputo para um curso de professores. Em Maputo fui recebido por um protocolo que me deu um passaporte e me enviou para a Tanzânia estudar Relações Internacionais, no Instituto Moçambicano, de que este livro fala extensamente. Entretanto o centro passou a ser chamado Mozambique-Tanzania Centre for Foreign Relations: Éramos cerca de sessenta jovens, entre Moçambicanos, Tanzanianos e Namibianos, incluindo a actual Ministra dos Negócios Estrangeiros da Namíbia Netumbo Nandi-Ndaitwah.
Este percurso não teria sido possível, se não tivesse sido a minha passagem pelos Seminários católicos do Zóbwè e Chimoio, onde recebi uma educação académica e cívica séria. E aprendi línguas: o Francês do Padre Manuel Marques, o Inglês do Padre Luís Ferreira da Silva e o Latim do Padre Manuel Gama. No Chimoio estávamos a começar com o Grego, mas foi sol de pouca dura. Posso dizer isso porque com o Inglês, o Português o Francês, não tive limites no concurso a postos em países de línguas diversas. Línguas aprendidas no Zóbwè.
Aprender várias línguas é importante (como se sói dizer, o saber não ocupa lugar).
III. O CONTEUDO
Tive a oportunidade de ser consultado para a compilação e a lavra deste livro. Esse trabalho me deu a oportunidade de ruminar sobre os momentos para mim marcantes do Seminário do Zóbwè, lembrar colegas contemporâneos que foram Ministros, embaixadores como eu, outros foram padres: Júlio Joaquim Mwendowasulo, falecido, Bispo Chwangira, grande futebolista, e catequista no Vanduzi também falecido, etc (não muitos).
Este livro vem também interrogar a história tal como nos foi contada oficialmente até agora. É um livro que confirma que a história a que nos habituamos é em regra geral a história do mais forte. Uma história que exclui e nega a contribuição de todos os que ofereceram perspectivas diferentes e pensaram de forma diferente. O livro confirma que isso será sempre assim, enquanto não houver uma contra-narrativa. Ele demonstra como o esforço de exclusão foi poderoso e os seus efeitos se sentem até agora. E como esta postura vai contra todo o esforço pela unidade nacional. Ele é, nesse sentido, um apelo à inclusão, a uma reflexão mais corajosa.
IV. ENSEJO
Valendo-nos da oportunidade de entrar e participar no evento na Universidade Católica de Moçambique em Tete, vamos concluir com uma cantata pessoal de júbilo.
Em primeiro lugar para agradecer ao autor por esta ocasião, por ter-me oferecido também o livro assim como a oportunidade de contribuir. Quem puder obter um exemplar, vale a pena comprar e ler.
Em segundo lugar, quero levar comigo os agradecimentos de todos os que participaram no evento, a fazer vénia à Universidade Católica de Moçambique em Tete, ao seu Reitor e Sua Directora por nos ter acolhido e por ter criado as condições para este convívio intelectual que para mim é também espiritual. Alias, só poderia ser assim numa universidade que é católica. Que a Universidade promova mais eventos intelectuais[3] para engajar e excitar o público não estudantil em discussões sobre assuntos sociais, espirituais e religiosos, culturais, económicos, e (porque não) académicos de interesse para o público leigo. Afim de que a Universidade Católica se transforme em uma plataforma de momentos intelectuais para o público.
Em terceiro lugar e mais importante: aproveitamos para agradecer ao Reverendíssimo Bispo e à Diocese,
Pelo esforço catequético em toda a Diocese. Este lançamento literário acontece na Semana do Catequista.
Pela reconstrução de centros históricos importantíssimos de educação e formação católica tais como o Seminário do Zóbwè, a Escola internato de Boroma, a Missão de Miruro, a lista de obras de reabilitação é longa e que, sob impulso, iniciativa e financiamento mobilizado pelo Digníssimo Bispo Diamantino estão a decorrer neste momento na Diocese e na Província.
Pelo trabalho social importante de uma agremiação intelectual chamada Plataforma Thomas Moore, através da qual a Igreja demonstra o valor social da fé, contribuindo, como rezam os seus termos de referência: paras a humanização dos espaços educativos, políticos, culturais e económicos. Uma plataforma dedicada a oferecer uma leitura das realidades sociais nacionais actuais que, através da Conferência Episcopal, permitam à igreja demonstrar ser o sal da terra e a luz do mundo, luz essa que não se deve esconder debaixo da mesa. Este livro também lavra uma história destinada a humanizar o espaço político nacional e esperamos que seja lido por aqueles que determinam a história que nos é ensinada.
O mal me perdoem porque não podia passar esta oportunidade sem mencionar o grande trabalho que a Diocese está a fazer e que precisa de continuação, afim de que a tese central deste livro, o seu argumento tenha frutos: a verdade, o progresso e a inclusão nacional. Este é um contributo para a unidade nacional na diversidade de ideias todas válidas e todas merecedoras de respeito. Sem esta catarse, a unidade nacional continua a ser uma miragem para a qual ainda estamos longe de começar a trabalhar.
Canhandula
Tete, 31 de Agosto de 2025
[1] Santo Agostinho foi um santo Africano do Norte de África. Zona que foi influenciada pela nascença da Igreja na Palestina, zona contígua. De igual forma, essa zona produziu três Papas Africanos pouco conhecidos: O Papa Vítor I (189-198), famoso por ter determinado que a Páscoa passaria a ser celebrada num Domingo; O Papa Melquíades (311-314) que fez construir a famosa basílica de Latrão, e o Papa Eclésio I (492-496) que instituiu a festa de São Valentim. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_dos_papas_africanos
[2] Até agora, Moçambique só tem 6% de casas de alvenaria. https://opais.com/apenas-seis-por-cento-das-casas-em-mocambique-sao-convencionais
[3] Uma vez ao ano? Uma vez cada seis meses? Public Relations please!



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