CRONICAS DE TETE 8
- canhandula
- Sep 11
- 4 min read
Escolhas Múltiplas uma Ova!
De 1973 a 1980 fui professor nas escolas secundárias de Chimoio. Isto vem a propósito do caso que vou contar. Naquele tempo um aspecto didático me marcou: ensinando Matemáticas, houve muito exercício de memória, mas também passei a ajudar os alunos a raciocinar, porque na matemática a memória é o menor dos exercícios, talvez maior na aritmética. Matemática exerce muito mais a lógica, o raciocínio.
Também ensinei a Biologia. Nesse aspecto, a biologia também requer, mais do que memória, um raciocínio e uma trasladação de conhecimentos de um organismo para outro organismo, comparável, mas diferente. A pura memória não serve como instrumento de aprendizagem e de armazenamento do conhecimento para a vida.
Por sinal, ensinei igualmente o Francês, onde o instrumento principal de aprendizagem era a memória. Percorrendo a gramática francesa, ensinei os meus estudantes a adaptar as análises gramaticais daquela língua às do Português, ambas da mesma origem. Contudo, muitas regras são enormemente diferentes. O que requer mais do que memória. importante. Assim, em todas as matérias, a tradição da análise passou a ser o instrumento de aprendizagem transversal mais importante a cultivar nos estudantes. O vocabulário e a análise gramatical foram os instrumentos privilegiados do ensino linguístico. Deixei a memória ao cuidado dos alunos, não sendo esse o meu cavalo de batalha da minha arte de ensino.
A que propósito vem esta estória? De forma simples e reflectiva:
Eu fiz exame de condução de automóveis ligeiros em Chimoio em 1975. Saí do país em 1989 e só voltei em 2022. O que significa que o meu conhecimento de condução encontra-se hoje viciado por códigos dos países onde vivi, muito semelhantes ao nosso, mas com pequenas diferenças. Para me adaptar ao ambiente da minha terra, achei por bom, agora que tenho tempo, tornar a submeter-me à aprendizagem do código da estrada, o mais que não seja para me actualizar das pequenas diferenças com outros países.
Assim estou inscrito numa escola de condução para a reaprendizagem da teoria. É aqui que descobri o cabrito: Forma de instrução e de reforço do conhecimento.
Existe um aplicativo de aprendizagem do código da estrada que todos os alunos temos. É um aplicativo prático, mas pontuado de erros gramaticais e de sintaxe. Para um aplicativo de utilização pública tão generalizada devia exigir-se que passasse por uma revisão linguística, antes de ser posto ao público. Ou se obedecem as regras gramaticais da língua ou se adopta outra língua. O que salva o aplicativo é que o código da estrada está anexo e este sim, é muito detalhado e claro, bem redigido e estruturado.
Este é um problema importante mas menor.
Reforço do conhecimento: Aqui é que se encontra o cão tinhoso: O método e a qualidade das avaliações.
A nossa avaliação é feita apenas através de perguntas de respostas chamadas múltiplas. Para mim como professor, esta metodologia de formação e educação é defeituosa e limitativa. Porquê?
Porque o teste de respostas múltiplas condiciona o aluno a selecionar, de duas a cinco das respostas que lhe são apresentadas, apenas uma (na realidade escolha única). O problema? O teste devia adoptar concomitantemente três métodos: (a) Perguntas fechadas de escolha única, (b) perguntas fechadas de escolha múltipla, e (c) perguntas abertas sem sugestão. Isso porque
Pode existir uma combinação de respostas que são apresentadas, cada uma dando uma resposta parcial. Não apresentar a opção de seleção de várias alternativas limita o raciocínio do estudante. O estudante passa a pensar que existe só uma resposta correcta, E tudo o resto deve ser rejeitado. Esse condicionamento mental cultivado ensina o aluno o raciocínio da exclusão em todos os campos, incluindo o académico, o social (e o político). A rigidez social e a pobreza mental.
Falta de questões de resposta aberta: Não apresentar nenhuma oportunidade de questões que deixem o aluno desenvolver o tema segundo a sua compreensão, a sua imaginação, a sua expressão e a sua capacidade inventiva tolhe a oportunidade do desenvolvimento mental, pilar de toda a educação académica e profissional. Isso tem dois efeitos limitativos:
O aluno não desenvolve o seu vocabulário, o seu pensamento livre, a capacidade de escrever de forma estruturada e à sua vontade. Nessas condições, pedir ao aluno que escreva uma carta aos seus pais nos revelaria uma grande lacuna de comunicação. Esse método retira ao aluno a oportunidade de melhorar a sua caligrafia, de deixar a sua imaginação correr, limitando – se a carris académicos de um comboio vazio mas obediente aos carris. Esse aluno mal terá a ousadia de pegar num pedaço de papel para pôr por escrito o seu próprio pensamento e a sua imaginação.
Para um aluno da cidade, que mal compreende a sua língua nacional e tende mais a falar português, mesmo esse Português é defeituoso. Portanto não domina língua nenhuma em profundidade. Que forma de comunicação pode este estudante praticar em público? Podemos pedir a este jovem para tomar notas de uma conversa oral? O espaço de aprendizagem social é muito exíguo.
Se esta fosse a situação geral, então nós estaríamos perante um desastre educacional, desastre de formação de mentalidades livres e imaginativas, um desastre de formação social.
A nossa crítica académica incide sobre um menu de opções de distração. O que se dá ao estudante não é na realidade escolha múltipla; é escolha única, porque escolha múltipla significa que uma, duas ou três opções seriam verdadeiras ao mesmo tempo. É a mentalidade de exclusão que está sendo inculcada de forma subtil.
A nossa critica social e política tem a ver com um sistema de educação assente sobre esta forma definhada e afunilada de testar o conhecimento. Se assim for, estamos cultivando nas escolas publicas uma multidão de seguidores sem capacidade de análise. Onde se ensina bem? Nas escolas privadas ou estrangeiras, que desenvolvem no estudante a capacidade de raciocínio, resolução independente de situações, em resumo, da capacidade de dirigir.
Quem tem a capacidade de meter os filhos nesse tipo de escolas? Se o leitor está a ver onde vamos, compreende então que o nosso sistema foi concebido para perpetuar as diferenças sociais. O filho do rico tem a vantagem para ser preparado para dirigir. Quem é rico em Moçambique? Um sistema formatado para que o pobre continue pobre. Dói, para não dizer que revolta.
Canhandula
Tete, Setembro de 2025




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