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ENCORAJANDO O MEU PAIS 2

1.      As nossas línguas nacionais[1]

 

Permitam-me dizer que aos 69 anos, eu já sou dos que se podem chamar de dinossauros.  Quando em Tete o bispo se chamava Niza Ribeiro, ele ficou apupado quando lhe propusemos que Maria Madalena parecia ter sido a namorada de Jesus, pela maneira como a bíblia apresentava esta personalidade.  Quase nos expulsava do seminário do Zóbwè. 


Aquando da proclamação da independência, nós vimos aquelas cores da nossa bandeira pela primeira vez e corremos ao alfaiate com pedaços de tecido para coser uma bandeira rápido.  E fomos passar o dia 25 de Junho de 1975 no aldeamento de Banga, Angónia, com a bandeira içada.  Naquela altura, os  aldeamentos foram criados pela aglomeração forçada de várias aldeias dispersas, tática de guerra que o governo português adoptou contra os movimentos de libertação em Moçambique e Angola.


Nós exultamos de alegria quando o Presidente Samora decidiu do fecho da fronteira com ao Rodésia, e a Rodésia passou a massacrar populações na Província de Manica (Inhazónia, etc.); eu ate fui a enterrar um professor colega que tinha sido transferido para lá pelo Diretor Provincial Zucule e seu Adjunto, Siavaca.  Uma transferência que era para mim, mas que eu recusei.


Serve este recital para provar que sou dinossauro na medida em que quando estudei no ensino primário na Missão da Fonte Boa (1962-1967), estudei as duas línguas: Nyanja e português.  Efectivamente, o Nyanja era ensinado por ser a língua nacional local, da mesma maneira que se ensinava o Português, da primeira à terceira classe.  Era na quarta classe que se deixava de ensinar a língua nacional.  Tempo colonial.


Tudo isto para situar o que vamos discutir: a língua nacional.  As línguas nacionais e a minha perceçãor das oportunidades que fomos perdendo ao longo de cinquenta anos.


O chinês aprende na escola em Chinês, o francês em Francês, o russo em Russo, o inglês em Inglês, o alemão em Alemão, o indiano em Hindi.  Por isso a aprendizagem lhes fica fácil.  Para o Moçambicano, primeiro tem de aprender e dominar uma língua estrangeira, que devia ser uma matéria como a geografia.  Depois deve utilizar essa língua para dominar matérias tais como a matemática, a geografia, as ciências físico-químicas, o direito, a filosofia.  Como queremos filosofar (raciocinar) em língua estrangeira?  Não vemos o desequilíbrio e a desvantagens que temos sobre outros jovens noutros continentes que estudam na sua língua materna?


Até quando continuaremos neste suplicio cultural?


Nossa língua, nossa expressão cultural por excelência.  Porque é que, cinquenta anos volvidos, o sistema de educação nacional não incentiva a aprendizagem das línguas nacionais?  O nosso aluno se empenha por conhecer o português, que ele fala e lê com dificuldades.  O nosso representante em Maputo tenta falar como um verdadeiro português.

No Mali e no Burkina Faso, o Francês não é mais língua oficial: sessenta anos depois das independências, acabaram por se aperceber que a sua cultura não é a cultura de Molière e de Rembrant, mas sim de Keita.  O apego a língua colonial aliena o povo culturalmente.  Também em Moçambique devemos dar-nos conta de que a nossa cultura não é a do Mouzinho de Albuquerque que aliás veio desterrar o nosso rei Ngungunyana[2] para os Açores!  Camões não foi Moçambicano; apesar de ter passado por aqui, não adoptou nenhuma língua nacional (eles chamavam indígena).


Na africa do Sul, o massacre de 1976 no Soweto[3] e de Sharpeville[4] em 1960 foram causados por um regime que reprimia as populações Sul-Africanas.   Um dos aspetos importantes destas manifestações era a resistência cultural: a população sul-africana (o povo sul-Africano) se recusava a inculturação forçada através do ensino do Afrikaans, língua bóer.

Cinquenta anos depois, esquecemo-nos de que se tinham declarado algumas línguas nacionais (sete se não me engano) como oficiais.  Cadê o esforço por massificar, honrar e priorizar as nossas culturas?  Para quando a introdução de línguas nacionais como alternativas de expressão no nosso parlamento?  Porque é que na igreja Católica e noutras religiões o uso da língua nacional local é possível e não é possível no estado?


Nossa língua, nossa cultura, nossa identidade. Demonstremos apreço por elas.  Um esforço e investimento sustentável nesse sentido, isso sim é que seria uma parte importante do diálogo nacional entre o estado e o seu povo.


Pena que a nossa cultura não seja promovida oficialmente, salvo para efeitos de turismo.  Veja como está vazia a página oficial[5].




 
 
 

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