ENCORAJANDO O MEU PAIS 3
- canhandula
- Jan 12
- 4 min read
1. Transladar de Maputo a capital do país?
Maputo é a nossa capital. Maputo é bonita, Maputo se encontra, pelo menos de três pontos de vista, em lugar estratégico. Estratégico para que fins?
A história de Maputo e da situação administrativa de Moçambique hoje é um legado colonial. Antes de Maputo foi mais importante para a penetração estrangeira em territórios do Indico: a Ilha de Moçambique, que foi a primeira capital de Moçambique no tempo do colonialismo português, de 1507 a 1898, e a baía da Beira, acesso ao império do Mwenemutapa.
Maputo veio impor-se primeiro como resposta aos interesses comerciais e industriais da África do Sul, que encontrou na Baía do Espírito Santo o lugar perfeito para a construção de um porto de escoamento, seguido de uma linha férrea.
Foi a economia da África do Sul que financiou em grande parte um empreendimento colonial português, que não tinha capital suficiente para a ocupação do território, ocupação essa oficializada na Conferência de Berlim[1].
Para mobilizar a mão de obra Moçambicana para as minas da África do Sul, os empreendedores e o capital Sul-Africano celebrou um acordo com Portugal que criou a Witwatersrand Native Labour Association (WENELA)[2]. Um sistema complexo que até hoje tem impacto na economia e na sociedade Moçambicana, particularmente a Sul do Save, zona delimitada para a sua ação.
Foi assim que a economia de Moçambique passou a depender imensamente da economia Sul-Africana, uma tendência que persiste hoje. Por outro lado, a zona centro do país dependia da exportação de mão de obra para as plantações de café e chá das Rodésias (Zimbabwe, Zâmbia) e Nyasaland (Malawi), de capital britânico, enquanto que o norte do pais era mão de obra reservada para as plantações de sisal da Tanganyika, colônia alemã. A exportação de mão de obra útil foi uma das formas que o colonialismo português encontrou para arrecadar dinheiro para o seu empreendimento colonial em Moçambique.
Dado o grau de desenvolvimento industrial da economia sul-africana, Maputo hoje, e uma grande parte de Moçambique, passaram a ser um supermercado aberto da produção agrícola e industrial da África do Sul. Cinquenta anos depois da independência, este tipo de relação ao nível da segurança alimentar, passa a ser uma relação de escolha, não é mais um esquema herdado do colonialismo. Sobretudo à luz dos múltiplos programas de desenvolvimento agrícola que não deram resultado quase nenhum, apesar do grande investimento mobilizado (PROAGRI, PPI, o famoso SUSTENTA).
A dependência econômica é um campo muito complexo para caber nestas páginas. E não é o tema central. Serve apenas para ilustrar que a nossa capital, tal que localizada, e uma porta de entrada e o centro de decisões que nos faz depender imensamente da Africa do Sul. A facilidade com que se vai a Africa do Sul e a mesma que se vai das machambas da Africa do Sul para os supermercados Sul-Africanos em Moçambique. As lojas Shoprite espalhadas pelo país estão matando a agricultura nacional com o fornecimento de produtos que toda a classe média e a maior parte da classe pequena prefere:
Uma batata sul-Africana é mais bonita, mais gorda e mais atraente e melhor arrumada nas prateleiras da Shoprite do que a batata pequena da Angónia que se vende ao bordo da estrada, ela por si já poeirenta. Muito poucas pessoas sabem por exemplo que a batata local no mercado Cambinde é mais saborosa, requer 30% menos óleo para fritar, e não é geneticamente modificada, e dura duas vezes mais tempo no armazém. Só que Cambinde é na poeira, no chão não cimentado ao lado de esgotos.
Por isso, a batata nacional não tem bom mercado: a vendedora não sabe apresentar o produto. Mas mais importante ainda, o agricultor depende da natureza para o seu cultivo. Tem medo de ir ao banco pedir empréstimo porque o banco não está interessado em favorecer o agricultor, com as suas taxas de juro muito altas. Uma exclusão financeira que tem impacto económico palpável por desencorajar a agricultura. Quem olhar mais afundo acabara por se aperceber que este desencorajamento dos bancos é propositado. Ao mesmo tempo é uma autopunição.
Algures em Maputo existe interesse em manter esta situação porque as relações econômicas e comerciais estabelecidas com a África do Sul beneficiam um grupo de interesses estrangeiros que nos quer ver na miséria e na dependência permanente. Daí que não exista no governo interesse nenhum em reabilitar a Estrada Nacional Número 1 que encorajaria o escoamento de produtos alimentares no sentido Norte-Sul. Decidimos pelo contrário, asfaltar e cuidar da estrada Maputo-África do Sul. Talvez haja interesses em Maputo que beneficiam de tal situação.
Maputo no extremo sul puxa-nos à dependência fácil e cómoda. Esta situação contribui para que Maputo se enriqueça, cresça e tenha toda a infraestrutura necessária. Contudo, o seu isolamento no extremo do país faz com que a mentalidade se isole da realidade nacional. Sem se darem conta, a sua posição geográfica impõe nos governantes a necessidade que têm de se assegurar que o país não escapa aos chefes que estão em Maputo. Por isso foram até ao ponto de criar a função de Secretario de Estado em cada Província. Porque é que a Província não passa então a chamar-se Estado, não sabemos. Mas esta situação tem um impacto nas atitudes: a centralização excessiva das decisões: tudo se decide em Maputo.
Nós propomos dois passos: um imediato, e outro a mais longo prazo por ter implicações financeiras, administrativas, emocionais, diplomáticas e econômicas enormes.
Imediatamente: a descentralização de decisões e de gestão do território, afim de tornar a máquina de estado mais eficiente, mais reativa a situações locais, dando mais poderes ao administrador de Distrito, ao Presidente do Município, ao Diretor Provincial, ao Governador.
A mais longo prazo: identificação de uma zona geograficamente mais central para transladar a capital do país para um sítio onde se pode prever a expansão, e que possa melhor radiar a administração estatal do território. Não é um empreendimento que se faça em dez anos. Abuja levou muitos anos: a planificação começando nos anos 1970, a construção começou em 1980 e se tornou capital oficialmente em 1991. Não é um programa do governo, é um programa do estado.
Existem outros exemplos dos quais podemos tirar lições. Existe capital financeiro para um tal empreendimento corajoso e futurista, não necessariamente hoje.
Visão, coragem, decisão, planificação, disciplina e determinação.




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