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ENCORAJANDO O MEU PAIS 5

1.      Concorrer para um emprego na função pública

 

Dizia eu noutro artigo que podem considerar-me um dinossauro.  Uma das razões é que nunca dissemos, mas sempre compreendemos e assumimos que o emprego na função pública é sempre gratuito, por norma e em todo o mundo: basta provar capacidade para assumir as funções, passar por uma entrevista, submeter a documentação acompanhando um requerimento, o emprego segue-se.  Se não for da primeira vez, será de outras vezes, mesmo que deva fazer cinco pedidos: um vai dar.


E nunca ninguém nos pediu dinheiro para receber o requerimento, nem para ser empregado.


Acima de tudo, no nosso tempo, as coisas eram ainda mais fáceis.  O meu primeiro emprego foi de professor.  Fiz uma visita à escola secundária de Chimoio e perguntei pela Secretaria.  Fui até lá, deram-me uma minuta e uma folha para escrever.  E pediram-me para tornar a voltar logo que fizesse reconhecer o meu requerimento.  E eu que acabava de sair do Seminário Médio de Chimoio, uma das qualidades que tinha era não me demorar desnecessariamente.  Fiz o requerimento, subi à cidade fazer reconhecer e na mesma tarde tinha entregue o meu requerimento.  Uma semana mais tarde o Diretor pedagógico me chamava para começar no trimestre seguinte.  O trimestre começava duas semanas depois.


Quer dizer, entre pedir emprego e começar a trabalhar não passaram duas semanas.  Logo logo procurei uma casa de arrendamento.  Era uma casa deixada por um farmeiro Rodesiano e que deixou ate o seu relógio TISSOT, o primeiro que eu utilizei na minha vida.


E trabalhei cerca de cinco anos.  No quinto ano, quando o diretor provincial da educação e o seu adjunto me convocaram para ser transferido para Espungabera, achei que não devia aceitar.  Saí e fui ao BPD pedir emprego no dia seguinte.  Ao terceiro dia, o BPD me oferecia emprego na sua delegacia de Quelimane.  Uma semana mais tarde, solteiro de mim, estava num machimbombo para Quelimane.  Com guia de marcha e tudo.  Cheguei a Quelimane três dias mais tarde, fui apresentar-me ao banco.  Trabalhei uma semana e dei-me conta que o trabalho monótono e sedentário do banco não se adequava ao meu carácter peripatético de professor.  Duas semanas mais tarde estava de volta na minha escola.  Por sinal não me tinha despedido nem pedi exoneração, e, portanto, nem precisei de dizer que tentei outra profissão.


Enfim, depois de sete anos de professorado, o governador Manuel Antonio me convoca para dizer que devia ir a Maputo para um curso de professores.  Fui a Maputo sem saber que não voltaria mais.  À chegada, aquém me recebe do protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros (senhor Boca) que estranhamente já tinha um passaporte com a minha fotografia e me informou que dentro de cinco dias devia viajar para Dar-es-Salaam para um curso de relações internacionais.  Depois de ano e meio, voltei e me deram uma mesa e ma cadeira no Ministério. Acabava assim de me mudar de emprego.  Passei sete anos no Ministério e dado que me ia casar com uma estrangeira, um diplomata só se podia casar com uma estrangeira com autorização.  Nunca discuti nem investiguei para saber se era lei ou decreto, apenas sabia que não teria oportunidade de pedir exceção.  Então decidi mudar-me para outro emprego.  Em Maputo, tentei e fui recebido dentro de uma semana pelo Banco de Moçambique.  Onde trabalhei nove meses.


Trabalhei no Departamento de Relações Internacionais do BM na altura de Eneias Comiche.   E sai de lá de livre vontade, passando a tradutor livre de confêrencias da Organização da Unidade Africana por um momento muito breve.


O emprego seguinte até me procuraram para mo oferecer: como Assistente de terreno do escritório de Tete do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.  E foi aqui que passei o resto da minha vida publica útil: 33 anos.


Conto este roteiro para dizer que o emprego era fácil.  Nunca ofereci, nunca me foi pedido nenhum suborno.  Nunca sequer fui constrangido ou voluntariamente pensei em ir dar dinheiro a quem quer que fosse como agradecimento por me ter recrutado.


Contrastando

Em Outubro de 2025, a PRM anunciou quatro mil vagas a ser providas por jovens mediante recrutamento[1].  O Comando da Polícia especificamente foi ouvido dizendo que , e reza assim o jornal “o País”:

O porta-voz do Comando-Geral da PRM, Leonel Muchina, assegurou que as vagas não estão à venda e que qualquer pessoa envolvida em atos de corrupção ou burla será responsabilizada. “O Comando-Geral da PRM distancia-se de todos os atos contrários à lei”, reforçou.

O presidente da Associação Moçambicana de Polícias, Nazário Muanambane, alerta, no entanto, para a existência de esquemas de corrupção dentro da corporação. Segundo afirmou, há agentes incumbidos de liderar processos de recrutamento que se têm envolvido em pagamentos ilícitos para garantir vagas, permitindo a entrada de indivíduos de má-fé e com comportamentos desviantes, o que compromete a credibilidade da instituição.

Com efeito, eu também sou frequentador, em Tete, dos escritórios do Conselho Municipal e do Registo Civil, porque estou a gerir pequenos dossiers de família e pondo em ordem a papelada.  Desde aquele anúncio, na cidade de Tete apenas, encontrei-me com uma multidão de não menos de duzentas pessoas por dia no Conselho Municipal, e tantos outros no Registo Civil e ainda no registo notarial, com duas filas: uma para reconhecimento de documentos e outra para a obtenção de registos criminais.  Em quatro dias teria já contado mais de dois mil jovens.  Só em Tete (cidade).  Imaginemos agora que Tete espelhe o que se passou em todas as províncias, podíamos especular pelo menos 2.000 jovens multiplicados pelas onze províncias deram entrada dos seus requerimentos.


Os mais desesperados passaram então a procurar formas de ter prioridade de atenção: esses foram deixando 200.000 Meticais, só para que fossem na lista prioritária.  Certamente que nem todos terão a sorte.  Esses 200.000 Meticais saíram de algum sítio, de algum parente ou de algum empréstimo de conhecidos.  E se não obtiver o emprego, como devolve tal dinheiro?


Tenho também um amigo que depois de completar o curso de professor, foi informado que o estado não oferece emprego, que devia desembrulhar-se.  Foi tentar a sua sorte e na escola lhe disseram que devia entregar pelo menos 100.000 Meticais.  Metade ficava com o encarregado dos Recursos Humanos e a outra metade será distribuída pelo Director da Escola e o Administrador do Distrito.


Nesta altura do campeonato pelos poucos empregos, só pessoas patrocinadas, com conhecidos no aparelho é que conseguem emprego.  Mediante pagamento sempre.  E o FMI está de olho no estado para se assegurar que o aparelho de estado não emprega mais pessoas.  Entretanto, o número de crianças que passam à idade escolar cada ano é de mais de um milhão.  Esses professores são necessários. 


O direito constitucional ao emprego já não existe no nosso país.  Cada um que se arrange.  O meu amigo professor vai procurar 5.000 Meticais para começar com um negócio de venda ambulante de ovos ou roupa de segunda mão.  Se é a roupa que temos o hábito de ver nas ruas, até parece ter sido resgatada da boca de um boi.  Sem exageros.


Deve haver uma limpeza cirúrgica, dolorosa e radical no aparelho de estado, através da punição exemplar dos que solicitam e recebem suborno, a nível da província e a nível da capital.


Para haver um diálogo nacional mais são entre o povo, na sua maioria jovem à procura de emprego, deve haver: melhor educação, uma formação para o mercado do emprego ou para o do autoemprego.  Uma revisão em profundidade do nosso sistema de educação: educar para quê?


Esse é outro ângulo específico e concreto da manifestação do diálogo nacional.  Enquanto estas injustiças não se resolvem, esse diálogo é um monólogo confortável entre os favorecidos pelo estado de coisas, uma situação que aliena o soberano.



 
 
 

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