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SOBRE O DIALOGO NACIONAL INCLUSIVO – ARTIGO 2 - Leitura longa

A.    INTRODUCAO

Há algumas semanas que escrevemos um artigo analisando o famoso diálogo nacional inclusivo em curso.  Nele[1], afirmamos as seguintes quatro premissas principais:


  1. Inclusivo é uma palavra ambiciosa e vã, na medida em que ela é uma camuflagem de um diálogo de gestão de interesses de diferentes partidos.  E nem todos.  Significa que os partidos assumem colectivamente que negociando entre eles estão a representar o povo.  Estão muito longe da verdade[2].  Porque os cinco pretendentes a o trono presidencial apenas contar  com 7,2 milhoes de  votos, de 17.1 milhoes  de eleitores (a maioria -dos eleitores registados- decidiu não votar – votou pela ausência).   E os que votaram, a maioria não pertence ao partido pelo qual votou, votou por simpatia preferencial!  Se os partidos compreenderem este fenómeno, serão mais circunspectos em pensar que representam o povo.

  2. Para o diálogo ser frutuoso, os partidos deviam depositar os seus pontos e retirar-se, não se apoderarem do diálogo.  O partido é um intermediário, um padrinho.  Quando a pessoa que estás a representar está presente, não tens mais agência de representação, deves retirar-te.  Quando um presidente visita outro, o Embaixador já não leva a bandeira.

  3. Um diálogo que vai até meados de 2027 está formatado para adiar decisões de reformas até depois das próximas eleições, dado que a AR, representando interesses de partidos mais do que do povo, andará em procedimentos prolongados destinados a ganhar tempo para as eleições de 2029.

  4. O verdadeiro diálogo não é uma campanha que se termina daqui a dois anos.  Diálogo é uma relação constante entre o soberano e o Estado, retirados os padrinhos. 

 

Esse diálogo já se estabeleceu nas tradições existentes: O que o estado oferece na educação, na saúde, na água, na electricidade, no emprego, esse é o verdadeiro diálogo. caracterizado por uma exploração do soberano pela instituição que ele (o soberano) instituiu.  Ou seja, o estado apoderou-se da posição de soberano.  O tal povo deve pagar 200.000 Meticais para entrar na corporação  policial.  Compra o  emprego e pode até não ter o tal emprego e ficar com uma divida sem fontes de receita para pagar.  Com grande parte deste dinheiro sendo encaminhado para um estado centralizado em Maputo. 

 

Este é o verdadeiro estado, caracterizado e confirmado de tempos a tempos com escândalos que finalmente vem ao público:

  • o arrombo no Fundo Soberano na ordem dos 33 milhões de dólares;

  • investidas contra o dinheiro do estado para pagar mais de 500 milhões de Meticais a empresários jovens cuja actividade especulativa mal beneficia o país;

  • a compra de tractores Mahindra para o transporte colectivo humilhante de pessoas, a preços especulativos, quando um tractor de marcas reconhecidas e temperadas na forja do conhecimento tais como um Massey Ferguson novo, custa apenas $25.000 ou 1.600.000 Meticais. 

  • A saga das Linhas Aéreas de Moçambique.

  • Etc.


Este é o verdadeiro diálogo.  É aqui onde o tal diálogo deve incidir: no saneamento preliminar do estado.

 

B.     PATRIMONIO INTELECTUAL A DISPOSIÇÃO

Mais uma vez, reiteramos a tese de que esse diálogo nacional inclusivo não está bem concebido.  Porque ele ignora toda uma base de conhecimentos públicos posta à disposição por muitos quadros moçambicanos através de análises escritas e publicadas.  Portanto disponíveis.  Para o caso, apoio-me nos seguintes documentos recentemente publicados:


1.      Dinâmicas do controlo interno e externo na contratação pública em Moçambique[3], publicado a 11 de Junho de 2025, da autoria conjunta de

  • Samya Suraya Meragi Tajú do Fundo da Economia Azul-ProAzul, FP, Moçambique,

  • Manuel Macie, da Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique,

  • Teodoro Waty, da Universidade de Aquila, Moçambique[4]

 

2.      Análise Crítica e Simplificação do Relatório e Parecer Sobre a Conta Geral do Estado de 2023[5], publicação de 06 de Outubro de 2025, da autoria do Centro de Integridade Pública.

 

3.      Moçambique Recolonizado Através da Corrupção – como o FMI criou um estado oligárquico[6], da autoria de Joseph Hanlon (tradução de Teresa Lima).

 

4.      E continuamos inspirados pela Cartilha política para o diálogo nacional inclusivo[7] emitido pela Conferência Episcopal de Moçambique, destinado a promover o debate público na igreja Católica sobre este tema.  Cartilha essa que adianta já os maiores questionamentos e apresenta propostas para um diálogo frutífero, nas condições actuais desse diálogo.


Nós vamos mais longe: o diálogo deve e é pela sua natureza permanente porque o povo está sempre procurando os serviços do estado.  Em contacto permanente com o estado, nem sempre esse contacto é agradável.


Assim, o formato escolhido (um diálogo que começa em 2025 e se termina em 2027) não vai dar fruto duradouro.  Não é diálogo, é consulta. É mais uma campanha para deixar escapar as frustrações, e depois fechar-se o espaço, se desenvolverem mais tensões explosivas, para serem geridas mais tarde da forma que conhecemos já: o uso e abuso de instrumentos de guerra e de violência, recusando responsabilidade pela má gestão da coisa pública, acusando sempre o mesmo inimigo: são forças estrangeiras a trabalhar para nos desestabilizar – existe uma mão estrangeira. 


Esse argumento, repetido muitas vezes por um estado que não quer diálogo porque está prisioneiro do capital estrangeiro extrativo devia reconhecer, como se diz popularmente, que quando o dedo indicador de uma mão aponta para um inimigo imaginário, os outros quatro dedos estão na realidade apontando para o verdadeiro culpado.  


É por isso um diálogo que despreza a capacidade e agência do povo em se mobilizar e reclamar o direito a uma boa educação, a uma boa saúde, ao emprego.   De facto, é uma recusa de ser ajudado a sair das amarras do capital internacional por esta juventude consciente das suas capacidades, dos seus direitos e dos recursos nacionais existentes.


É um argumento que continuaremos a ouvir, ora em Moçambique, ora na Tanzânia, ora no Quenia, ora em Madagascar.  Já triunfou a movimento popular no Niger, no Mali e no Burkina Faso. Depois será noutro país.  Negar a agência e a capacidade de mobilização do povo pelos seus direitos é uma forma de dizer que o Africano não tem capacidade de se exprimir por si próprio.  Esta crença infantiliza-nos, infantiliza até os próprios detentores do poder, expondo-os aos caprichos do capital internacional, capital esse que continua muito forte em Moçambique e se atreve a escrever uma carta de chantagem nacional ao Presidente.[8]


Fazemos inteiramente nossas estas análises recentes, intelectualmente muito rigorosas.  Enquanto estas questões não forem séria e corajosamente abordadas pelo poder, o diálogo nacional é um evento fácil de esquecer.  As condições para um diálogo frutificar não foram preparadas, e não dependem do povo, mas sim do poder.  Sanear o estado, depois conversaremos. 


Mais contextualmente cada um destes documentos levanta as questões que o estado deve sanear:

 

1)    Dinâmicas do controlo interno e externo na contratação pública em Moçambique

Passamos a citar passagens deste documento, que reforçam a nossa mensagem.  O documento pode ser lido na íntegra como indicado acima.

“Para que  não se possa abusar do poder é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder" (p.3)
“A  atuação  dos  órgãos  do  controlo  interno  é  relevante  porque  dá  ao administrador suporte e confiança na gestão do património do Estado. Esta é uma importante ferramenta no domínio do controlo preventivo, detetivo e corretivo, que deve ser operado com todo o rigor e independência, a fim de cumprir as finalidades a que se propõe”. (p.5)
“Tanto o controle interno como o externo possuem mecanismos legais para operacionalizar as suas atribuições, no entanto existem fragilidades sobretudo no que diz respeito ao orçamento que é reduzido.  Para ilustrar, o orçamento do TA (Tribunal Administrativo) vem do executivo, que de alguma forma dificulta o seu trabalho, na medida em que segundo (Manteiga, comunicação pessoal, 21 de Fevereiro de 2025):" É do interesse do controlado que o controlador esteja numa situação frágil"13. Para que o TA tenha maior liberdade para cumprir com as suas competências o seu orçamento não deveria passar pelo Ministério das Finanças, mas sim por órgão ou instituição externa ao executivo.  Analisado o relatório anual de progresso e  financeiro do TA de 2023, verificamos que estavam previstas a realização de 350 auditorias, sendo 250 da Contadoria de Contas e Auditoria (CCA) e 100 da Conta geral do Estado (CGE), correspondendo a uma  cobertura  orçamental de 55%.   No  entanto,  devido  a  constrangimentos  de carácter financeiro que se prenderam  com a disponibilização de recursos, o TA teve que reajustar as suas metas estabelecidas para 259 auditorias, distribuídas em 172 do CCA e 87 pela CGE, tendo como cobertura orçamental em 22,8 %.
Constata-se, pois, que no período em apreço foram realizadas 51 auditorias pela Contadoria de Contas e Auditoria  e nenhuma auditoria foi realizada pela Conta Geral do Estado, representando 15,33 % da cobertura orçamental. Ora, se tivermos em conta que a maior parte da despesa pública é alocada para a aquisição de bens e serviços as instituições, estes dados constituem uma preocupação na medida em que podem estar a ser executadas despesas públicas sem o controlo do TA.  Outro aspeto de igual relevância refere-se à insuficiente submissão, por parte da IGF, dos relatórios de auditoria ao TA, tal como acontece no Brasil, o que aumenta o esforço do TA na medida tem que realizar as auditorias de iniciou quando poderia ter por base as recomendações deixadas pela IGF.  Estes  relatórios também  não  são  disponibilizados  aos  cidadãos  que  queiram analisar os dados pois são considerados como informação classifica, fazendo com que  o  cidadão  que  contribui  com  os  seus  impostos  em  algum  momento  não  tem informação  de  como  as  instituições  públicas  auditadas  pela  IGF  estão  a  gerir  os recursos do Estado.  A transparência na administração pública constitui um dos pilares fundamentais do Estado de Direito, especialmente no que se refere ao controlo e fiscalização da despesa pública.” (p. 9)
"É preciso moralizar a sociedade, educar os nossos filhos, para que amanhã tenhamos uma sociedade que responde ao seu desidrato que é o bem estar de todos" (p. 15)
“A  cultura  institucional  ainda  é,  por  vezes,  permissiva  à informalidade  e  à  impunidade,  o  que  exige  investimentos  na  formação  ética  dos agentes públicos, na digitalização dos procedimentos e na participação da sociedade civil como fiscalizadora dos processos públicos”.
“Conclusão
… Urge a necessidade do acompanhamento das recomendações deixadas pelos órgãos de controlo, a promoção de integridade, transparência na gestão dos fundos, aumento das capacidades financeiras e humanas dos órgão de controlo, diminuição da  dependência  da  IGF  em  relação  ao  Ministro  das  Finanças,  dispondo  de  uma autonomia para proceder com inquéritos e instruir processos disciplinares, partilha do Plano  de  Auditoria  as  instituições  pelos  órgãos  de  controlo interno  e  externo,  realização  de  auditorias  de  desempenho  que  possam  dar  uma  imagem  sobre  a qualidade da execução orçamental por parte do TA, reforço do orçamento para que as auditorias sejam realizadas de acordo com o planificado, bem como a continua capacitação dos funcionários em matérias de controlo. É importante que os relatórios das IGF deixem de ser considerados classificados e confidências, na medida em que esta instituição zela por, e tem como missão a boa gestão dos recursos públicos, parte dos quais são oriundos dos pagamento dos impostos do cidadão, sendo expetável que este mesmo cidadão tenha acesso a informação de como estão a ser utilizados os fundos públicos”.(p. 19)

 

2)     Análise Crítica e Simplificação do Relatório e Parecer Sobre a Conta Geral do Estado de 2023

Neste documento analítico, depois de descrever no  capítulo 3 o Panorama do Investimento na Indústria Extractiva em 2023, a análise com os seguintes capítulos:

Capitulo 4: A verdade sobre os impostos pagos em 2023;

Capitulo 5: Custos recuperáveis - a bomba-relógio fiscal de moçambique;

Capitulo 6: Os 2,75% para as comunidades - incompetência, desvio ou desprezo?

Capitulo 7: Conteúdo local - uma promessa por cumprir;

Capitulo 8: Fiscalização ambiental - um tigre de papel?


Na sua conclusão, o CIP remata com uma CONCLUSÃO (capitulo 9, que reproduzimos na íntegra):

”A análise crítica e simplificação ao Capítulo 5 do Relatório e Parecer sobre a Conta Geral do Estado de 2023 revela uma verdade desconfortável e perigosa: a maior ameaça às futuras receitas de Moçambique não vem (apenas) das empresas multinacionais, mas da incapacidade crónica e sistémica do próprio Estado em exercer a sua função fiscalizadora mais básica.
O relatório do Tribunal Administrativo, quando lido com a profundidade que merece, não é apenas um documento contabilístico. É o diagnóstico de uma patologia de governação que, se não for tratada com urgência, arrisca transformar a promessa de riqueza do gás e dos minerais numa miragem. A nossa análise identificou cinco falhas sistémicas que, juntas, pintam este quadro preocupante:
  1. O  Estado falha no cumprimento da sua própria lei ao não transferir atempadamente os fundos legalmente devidos (2,75% e 7,25%) às comunidades e províncias. Esta falha não só priva as populações dos benefícios directos da exploração dos seus recursos, deixando projectos essenciais parados e crianças a estudar debaixo das árvores, como também revela uma gestão caótica e pouco transparente dos fundos públicos, com fortes indícios de má gestão ou desvio;

  2. O Estado está sentado sobre uma bomba-relógio fiscal de quase 20 mil milhões de dólares em custos por auditar. Com um atraso de mais de seis anos na fiscalização, Moçambique está em risco iminente de perder, por força da lei, o direito de contestar biliões de dólares em despesas, permitindo que as empresas se reembolsem sem o devido escrutínio. É a maior vulnerabilidade fiscal do país, nascida da inércia do regulador;

  3. A reincidência de infracções ambientais por parte de algumas empresas mineiras, e a resposta tímida do regulador ambiental (AQUA) que concede moratórias em vez de aplicar sanções severas, demonstra uma cultura de impunidade onde os custos de poluir são mais baixos que os custos de cumprir a lei;

  4. A incapacidade do regulador mineiro (INAMI) de fornecer dados consistentes sobre a sua actividade mais elementar, o número de licenças emitidas, é um sintoma de desordem profunda. Sem dados fiáveis, a governação torna-se um exercício de adivinhação e a fiscalização uma impossibilidade, abrindo portas à ineficiência e à corrupção; e 

  5. A demora de anos para aprovar um regulamento claro sobre o Conteúdo Local significou que as maiores oportunidades de negócio para as empresas moçambicanas, na fase mais intensa de investimento, foram perdidas. O Estado falhou por não criar as regras do jogo a tempo, deixando o empresariado nacional a correr atrás do comboio.


Estas cinco falhas não são problemas isolados. São sintomas interligados da mesma doença: um aparelho de Estado que não se coordena, não se fiscaliza e, consequentemente, não consegue fiscalizar eficazmente os outros.

Para evitar que a década de ouro de Moçambique se transforme numa década perdida é imperativo que o debate público e a acção política se foquem, não apenas em obrigar as multinacionais a pagar, mas em obrigar o Estado a fazer o seu trabalho. As nossas recomendações estratégicas são:
  • Contratar imediatamente uma “task-force” especializada, nacional ou internacional, para auditar os custos recuperáveis antes que o prazo legal expire e, simultaneamente, a Procuradoria-Geral da República iniciar uma investigação ao dinheiro perdido dos 2,75%, para apurar responsabilidades;

  • Criar e ou operacionalizar portais públicos e obrigatórios para o Cadastro Mineiro, para as oportunidades de Conteúdo Local e para as transferências de receitas às comunidades; e

  • Investir massivamente na capacitação técnica e na independência do INP e da AQUA, dotando-os de meios e de poder para agirem como verdadeiros “cães de guarda” do interesse público e não como meros espectadores burocráticos.

Em suma, a Conta Geral do Estado de 2023 é um espelho que reflecte uma imagem que Moçambique não pode ignorar. A correcção destas falhas sistémicas não é uma opção. É uma condição essencial para que a riqueza que jaz no subsolo se transforme, um dia, em desenvolvimento real e sustentável para todos os moçambicanos.”

 

C.    Moçambique recolonizado através da corrupção – como o FMI criou um estado oligárquico

Este outro documento é de cerca de 370 páginas, com a última página que resume bem a mensagem central.  Mensagem essa dirigida a todo o povo moçambicano, no estado, nas empresas, singulares e coletivos, aos poderes (legislativo, judicial e executivo).  Pela sua abrangência do tema, refletimos aqui na  íntegra essa página, que reza:

“Moçambique está em crise.  Não há emprego para os jovens, que não conseguem ver um futuro.  A pobreza e a desigualdade aumentam.  Cabo Delgado sofre com a maldição dos recursos naturais e a guerra civil.  O partido no poder sabe que não pode ganhar eleições justas.
Neste livro, Joseph Hanlon documenta como esta crise foi criada  pelas imposições escandalosas e quase inacreditáveis do FMI e dos doadores.  Estes promoveram o surgimento de oligarcas que usaram o estatuto político para ganhar  poder econômico e que serviriam interesses estrangeiros.  A corrupção foi realmente provocada, como por exemplo, na privatização dos bancos.  Alguns Moçambicanos resistiram.  Depois de o Banco Austral ter sido saqueado, um banqueiro honesto, Siba Siba Macuacua, foi nomeado presidente.  Pouco tempo depois, foi atirado do topo do edifício de 15 andares do seu banco.  Os assassinos e saqueadores são conhecidos, mas ninguém foi processado.
As elites receberam tacitamente o direito de manipular contratos com o estado e de comercializar heroína e madeiras preciosas.  O silencio cumplice do FMI e dos doadores perante os vários escândalos descritos neste livro, foi visto como prova de que o que antes era chamado de “corrupto” se tinha tornado como parte integrante do novo “mercado livre”.  Em troca, os novos oligarcas garantiram que  as empresas e os países estrangeiros, beneficiassem do gás, do carvão, dos rubis e da hidroeletricidade.  Os oligarcas tornaram-se os administradores locais de uma nova forma de colonialismo.
A austeridade imposta pelo FMI não só esmagou os mais pobres, como também empurrou a maioria dos funcionários públicos para abaixo da linha de pobreza.  Isto significou que professores e enfermeiros tinham de pedir dinheiro extra para poderem alimentar os seus filhos.  Isto empurrou os serviços “públicos” para o “mercado livre”, levando a uma corrupção generalizada, mesmo na educação, na polícia, nos tribunais e no exército.
Este livro mostra como, 50 anos após a independência, Moçambique foi recolonizado.”

D.    Cartilha da Igreja católica


Esta exortação aos fiéis católicos traz dois grandes capítulos, onde são expostas as questões candentes, as suas bases constitucionais, e são apresentadas propostas de correção, afim de que este diálogo tenha um impacto positivo no tecido nacional.  Muito resumidamente:


1.      Sobre as reformas referentes à revisão constitucional

Neste capítulo são propostas em resumo as seguintes ações:

  1. Limitar as competências do Presidente quanto a designação dos titulares dos órgãos dos poderes públicos: Tribunal Supremo e Vice Presidente; Conselho Constitucional; Tribunal Administrativo. Que estes titulares sejam eleitos entre os pares que compõem o Conselho Superior das Magistraturas.  Da mesma forma, que a nomeação dos Reitores e Vice-Reitores das Universidades Públicas sejam feitas entre os pares que compõem os Conselhos Académicos e Científicos.

  2. Banir a figura do Secretário do Estado nas Província, para evitar a duplicação de estruturas de governação e poupar o orçamento do Estado.

  3. Despartidarizar a CNE e o STAE e investir de honestidade e idoneidade as pessoas que os compõem: A ideia de paridade política multiplicou os conflitos,

  4. Introduzir votação eletrónica ou outra forma que não dê espaço a manobras ilícitas.

  

2.      Sobre  as reformas referentes à governação

 

  1. Adiar ou descartar a exploração dos recursos naturais que não criem ligações económicas, fiscais e espaciais no país.

  2. Fortalecer mais autonomia e mais recursos humanos e materiais às instituições de regulação e fiscalização.

  3. Aprofundar a reforma fiscal para garantir maior progressividade e captura de valor, acabar com os incentivos fiscais.

  4. Criar mecanismos mais eficazes de redistribuição de receitas para as comunidades locais, para a resolução de problemas concretos de desenvolvimento local: água potável, vias de acesso, electricidade, etc.

  5. Formar os jovens e as mulheres para a geração de renda e emprego: oferecer oportunidades para que as pessoas possam gerar renda de forma sustentável,

  6. Permitir a participação equitativa no mercado de trabalho: sem barreiras nem discriminação,

  7. Promover uma educação que capacita para o desenvolvimento de habilidades: apostar na profissionalização dos jovens e das mulheres,

  8. Criar programas de auxílio financeiro e escolarização,

  9. Incentivar o empreendedorismo,

  10. Criar programas que oferecem treinamento e capacitação profissional,

  11. Criar programas que facilitem o acesso a crédito, permitindo que pessoas de baixa renda possam investir em actividades económicas.

 

3.      Sobre a Unidade Nacional

 

  1. Construir uma memória colectiva baseada na verdade dos factos, sem omissões, precisamos de reconhecer os erros do passado,

  2. Construir uma visão compartilhada (sonhar juntos o mesmo sonho): isso passa primeiro pelo exercício do perdão sincero.

  3. Construir relações de confiança, promovendo a reparação dos danos, a justiça restaurativa, 

  4. Operar uma mudança cultural e de mentalidade: uma mudança significativa e radical das atitudes, dos comportamentos e da mentalidade, valorizar o outro, ver as diferenças como riqueza.

  5. Rever e monitorar a Comissão técnica para o diálogo; ter a certeza de que está a agir pelo bem do país, pela reconciliação de todos moçambicanos, pela paz e pela unidade nacional.  ‘’

 

C.     MINHA CONCLUSAO NESTE ESTAGIO DO DIALOGO


A 26 de Junho de 2024, a MozNews emitiu um artigo onde dizia:  Em 49 anos, Moçambique se transformou em um grande supermercado[9]


Como cidadão, também elaborei artigos sobre questões do meu país, incluindo a questão central de Cabo Delgado, a iniciativa do Fundo Soberano e outras análises públicas, que nos levam a conclusão insistente de que o diálogo como campanha não só não é necessário, mas até que ignora ou quer ignorar o que já se sabe: estudos sérios foram já emitidos que levariam o estado a sanar a situação, afim de sanar o diálogo com o povo.  O diálogo é constante e manifesta-se nestas e noutras situações todas.  O seu saneamento é a pré-condição para um diálogo genuíno e soberano.


Sem a coragem e a determinação, e sem o exercício do poder como arma para abrir espaço a este saneamento necessário, não existe diálogo.  Existe sim uma simulação para o doador, que correu para financiar o tal dialogo.  Enquanto não se arranca a semente da violência futura, o estado tornará a usa-la, a pretexto de ter o direito legal do uso e recurso a esta violência.


Queremos aqui emprestar uma afirmação da Doutrina Social da Igreja Católica que vem muito a propósito:

Não há paz sem justiça; não há justiça sem perdão; e não há perdão sem amor (é uma cascada). 

  1. Quem fala de paz sem detalhar que essa paz só se consegue com a justiça política, econômica, social e cultural, é um charlatão.

  2. Quem fala de justiça sem falar de perdão, esquece que existem muitos oligarcas que se apoderaram do futuro do povo e que agora sentem-se aterrorizados em contemplar uma justiça econômica e social inadiável.  O perdão é uma integrante importante do exercício da justiça, desde que esta justiça seja dirigida para a restauração, a devolução, e portanto ao perdão daqueles que se empenham pela devolução.  Justiça sem perdão, diz a Doutrina Social da Igreja Católica, pode facilmente se transformar em vingança.

  3. Este perdão não é um sentimento religioso no nosso caso nacional.  O perdão é uma arma de construção de uma nação, construção essa que foi sendo adiada par acomodar e servir interesses estrangeiros.  Hoje ainda se fala de rivalidades entre Nyanja e Nyungwe, entre Makonde e Muami, entre Ndau e Sena entre um Sul desenvolvido e um Chingondo.  Este discurso demonstra que cinquenta anos volvidos, a nação ainda não se construiu, o país ainda não é nação.  Ela não se constrói sem amor a uma pátria, sem respeito e apreciação pelas histórias e culturas diferentes de um território que se quer unido, que se quer nação, que se quer pátria. 

 

Repetimos a hierarquia de valores que nos vai salvar (nessa ordem): justiça, paz, perdão, amor.


Isso não se faz com uma comissão presidida por um membro assíduo de um partido, o mesmo que tem vindo a dizer, de cada vez que a juventude se levanta, que “é uma mão estrangeira que está por detrás”.  Por outras palavras, não acredita que o Moçambicano possa se levantar para reclamar

  • o seu direito a pertencer,

  • o seu direito ao trabalho,

  • o seu direito econômico,

  • o seu direito aos recursos da nação,

  • o direito de não ser deslocado à força das suas terras ancestrais e dos seus espíritos enterrados.


Um tal presidente de diálogo é um piloto que não acredita nos instrumentos à disposição no seu avião a jato.


Diálogo? 

Só depois de se renovar e reinventar um estado de soberania.  Um estado onde certos órgãos devem ter autoridade e recursos para controlar o estado,  Nenhuma pessoa sujeita a ser controlada dará de ânimo leve os instrumentos de controle a outra pessoa.  É a lei que o deve dar, não o presidente, por sinal também presidente de um partido.  Nenhum juiz que almoça e janta com o presidente fará justiça.  São funções estanques, separadas e que devem manter-se separadas.  Nos recursos, nas decisões, na execução.


Dialogo? 

Sugerimos aqui mais leituras:

 

Diálogo nacional?

Please do not joke with the poor people!

Canhandula

Novembro de 2025


[4] coincidentemente colega meu no seminário médio católico de Chimoio, 1973 - Reitor Alexandre Maria Jose dos Santos, mais tarde Arcebispo de Maputo.

Talking to each other or talking past each other?
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